ACADEMIA MAÇÔNICA DE LETRAS DE MATO GROSSO DO SUL

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Ruínas de uma antiga loja maçônica em Aquidauana MS

October 23, 2018

 

 

Como é sabido, a Maçonaria é uma instituição cuja origem e princípios remontam a contextos pretéritos longínquos. Foi no passado que se consolidaram nossas tradições, esculpiram-se os símbolos, enfim, para a Maçonaria o tempo materializa o seu modo de ser. Neste momento em que o GOEMS comemora o seu Jubileu de Prata, nossas atenções se voltam para a História, buscando assim conservar a memória e resgatar os esquecimentos da trajetória temporal de nossa fraternidade. Nessa perspectiva é recomendável que os secretários das lojas, assim como todos os irmãos, tenham atenção especial com os livros de atas, outras formas de registros escritos, fotográficos e mesmo certos objetos em desuso, os quais, no futuro, poderão ser fontes de pesquisa para que as próximas gerações maçônicas possam visualizar a universalidade temporal e espacial de nossa singular instituição.
Em 1990, quando, por razões profissionais, nos estabelecemos na região de Anastácio/Aquidauana, obtivemos o conhecimento de relatos populares referentes à existência de ruínas, na área central de Aquidauana, que, no linguajar comum, eram denominadas “Buraco da Ester”. Os significados à elas atribuídos variavam conforme o imaginário dos narradores. Para alguns era um esconderijo da Guerra do Paraguai, para outros eram vestígios da desaparecida cidade colonial castelhano/paraguaia Santiago de Xerez, destruída pelo bandeirante Raposo Tavares em 1632, outros associavam o “Buraco da Ester” ao tempo das missões jesuíticas, presentes na primeira metade do século XVII na área banhada pela bacia dos rios Miranda/Aquidauana, a Província Jesuítica do Itatim. 
Outros depoentes, menos familiarizados com a História Regional, interpretavam esses vestígios de edificações com um sentido menos nobre, isto é, levantavam hipóteses associadas a um comportamento furtivo de padres e freiras, ou ainda de cunho familiar. Essas versões eram e são ainda tão difundidas na região que, só por isso, já merecem um estudo sobre as representações que a maior parte da população, desprovida de conhecimento científico, faz sobre o passado e a História.
Por muitos anos, como estudioso e pesquisador da História Regional, fiquei na condição apenas de curioso sobre a materialidade deste “folclore” popular, já que a maioria dos informantes com quem tive contato não sabia precisar o local, pois também só tinham ouvido falar. Alguns outros informantes afirmavam que tinham testemunhado ocularmente a existência das ruínas, porém as mesmas já não mais existiam, pois haviam sido soterradas intencionalmente havia muitos anos. Assim, na época, ficamos desestimulados em continuar rastreando a capilaridade da memória popular regional com respeito à veracidade ou não do fenômeno, transferindo o problema para a extensa e criativa prateleira dos mitológicos “enterros”.
Há três anos, por meio de uma conversa coloquial com um dos herdeiros da falecida professora aquidauanense Ester Sanches, soubemos que o imóvel urbano onde estariam embutidas as ruínas, localizado em Aquidauana, encontrava-se à venda e estava desocupado. A partir de então, não só pela curiosidade científica, mas, sobretudo com a preocupação e a possibilidade de que estruturas do patrimônio histórico regional fossem irremediavelmente perdidas, com a anuência dos proprietários, optamos por uma abordagem arqueológica no local, visando verificar a existência ou não de vestígios históricos. Após serem realizadas escavações arqueológicas no interior do imóvel, confirmamos a existência de estruturas construtivas residuais, tais como uma escada, paredes de pedra e vestígios do teto de um pequeno cômodo subterrâneo. Eram as ruínas do lendário “Buraco da Ester”.
Enfim, que função teria tido esse recinto? Descartadas as inverossímeis versões populares, procuramos investigar quando, quem e por que aquela construção havia sido executada. Alguns informantes que afirmaram terem visitado o local antes do soterramento disseram que no interior dele haviam visto alguns objetos como uma adaga, um incensário, uma grande chave de ferro e outros cuja veracidade é duvidosa. Não foi possível confirmar nenhum desses informes. 
Consultando dois de nossos irmãos em Aquidauana, os quais inclusive possuíam fotos do local tiradas quando ele ainda estava intacto, levantaram a hipótese de ali ter sido uma câmara de reflexões, integrante de uma extinta Loja maçônica que existiu em Aquidauana na primeira metade do século XX. Perseguimos essa hipótese, inclusive fazendo uma consulta aos arquivos do GOB em Brasília, e constatamos que, no ano de 1923, existiu em Aquidauana uma Loja maçônica filiada ao GOB, denominada Amor Fraternal. Ao que parece, essa Loja abateu colunas no ano seguinte. Não foi ainda possível localizar nenhum documento que indique o endereço e nem os nomes dos integrantes dessa Loja.
Sabendo-se que uma das Lojas maçônicas mais antigas da região de Anastácio/Aquidauana é a Loja Caridade e Ordem, fundada em 1894 em Nioaque, ao visitarmos essa cidade, com o auxílio de uma cunhada da fraternidade feminina dessa Loja, localizamos a filha do segundo ocupante do imóvel, isto conforme levantamento da cadeia dominial realizado no Cartório de Registros Imobiliários de Aquidauana. Essa pessoa, hoje com 70 anos aproximadamente, informou que na sua infância residiu no imóvel e que seu pai, Emídio Dias, havia sido promotor de justiça em Nioaque antes de mudar-se para Aquidauana. Informou ainda que seu pai, desde quando residiam em Nioaque, era maçom. 
Questionamos se essa senhora, na sua infância, tinha conhecimento do “Buraco da Ester”, ao que ela respondeu afirmativamente, descrevendo parcialmente o que havia visto no interior desse recinto. Considerando-se o tempo passado e as dificuldades da memória de longo prazo, a narrativa coletada foi bem clara ao identificar itens normalmente existentes no âmbito de uma câmara de reflexões. Somando-se esse depoimento às características arquitetônicas do local, concluímos positivamente sobre a hipótese levantada pelos irmãos anteriormente citados, embora a pesquisa ainda não esteja plenamente concluída, pois restaria ainda identificar quem foram os integrantes dessa Loja e se eram continuadores da Loja Amor Fraternal, fundada em 1923.
O “Buraco da Ester”, antes de ter sido soterrado, no início da década de setenta do século passado, foi visitado, como já foi exposto, por muitas pessoas. Uma delas, Lélia Rita Figueiredo, filha do falecido governador de Mato Grosso Arnaldo Figueiredo, registrou formalmente o local como sítio arqueológico urbano no IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A partir de então, o local passou a ser protegido pela legislação federal de proteção ao patrimônio cultural do país.
Perante a ameaça de desaparecimento definitivo com uma possível reforma do imóvel, caso fosse concluída a venda, iniciamos ações no sentido de garantir a preservação de tal monumento histórico, tão relevante para a história do GOEMS quanto para a história urbana de Aquidauana/Anastácio. Como resultado, obtivemos a lúcida e tempestiva decisão do Reitor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), o irmão Manoel Catarino Paes Peró, bem como da cunhada Prof.ª Sílvia Salles Públio, diretora do Campus de Aquidauana da UFMS, de comprar o imóvel, isto com vistas a contemplar o interesse público depositado no significado histórico/patrimonial desse local.
Concluída há trinta dias a transação imobiliária, o imóvel passou a integrar o patrimônio da UFMS, o qual, com apoio técnico e legal do IPHAN, passará por trabalhos de restauração e reformas e será transformado em uma base de pesquisas e estudos arqueológicos e históricos da região da bacia dos rios Miranda/Aquidauana, além disso será também um monumento histórico aberto à visitação turística e um ponto de eventos culturais e científicos.

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